Ana Raspini é viajante, além de professora de Inglês, e escritora.

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Brasileira, professora de Inglês, escritora, mas acima de tudo, viajante.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Intercâmbio depois dos 30: Vantagens e desvantagens

Eu sempre quis morar fora do país por um tempo, isso sempre esteve nos meus planos. E eu sempre quis ficar pelo menos um ano, para ver todas as estações e todas as celebrações daquele país.

Quando eu era adolescente, o plano era pegar um avião pra Londres assim que terminasse a graduação. Acho que Londres é o sonho de qualquer professor de Inglês.

Mas a vida, meu amigo...

Só consegui visitar Londres aos 27 anos, no meio do Mestrado, e digamos que a cidade não era como eu esperava. Era inverno e o clima foi uma desgraça, choveu em cada um dos 7 dias que passei lá. As pessoas estavam mau-humoradas, a comida era pesada e a cerveja sem gás. Depois da viagem de Londres, "aprendi a não carregar expectativas na mala. Pesam muito".

A vida tomou seus rumos próprios e se contassem pra Ana de 14 anos que ela casaria com um alemão, ela daria risada. Casei com um alemão e moramos no Brasil durante 7 anos antes de tomar a decisão de vir pra Alemanha.

Então, eis que aos 31 anos me vejo morando num país cujo idioma eu não falo, estudando diariamente para compreendê-lo. Como ainda não posso comprovar o nível A1 (um exame que farei em breve), não posso trabalhar, são as regras do país. Voltei a ser apenas estudante, aos 31 anos.

Noto diariamente as vantagens de, finalmente, realizar o sonho do intercâmbio, mas também noto as desvantagens. Vamos a elas:

AS DESVANTAGENS estão na idade, no 'aluguel' do corpinho que fica cada dia mais caro. Depois dos 30 a gente já carrega umas burocracias com a saúde que não carregava 10 anos antes: É uma enxaqueca que você acompanha com o neurologista da sua cidade, um nódulo no seio que você precisa verificar anualmente, uma dor chata nas costas que só passa com aquele relaxante muscular que só vende no Brasil. Aliás, taí outro grande problema, a maioria dos países europeus não permite a venda de quase nenhum medicamento sem receita médica. Isso complica bastante a vida da gente que já estava habituado com relaxante muscular, anti-inflamatório, etc. Passei um mês com dor nas costas depois que cheguei porque ajudei o esposo a subir uma cama box, um sofá de 3 lugares e mais uma dezena de coisas dois andares acima. A Ana de 22 anos teria se recuperado bem mais rápido desse tipo de esforço físico.

AS VANTAGENS são, na minha opinião, a realização do sonho em si, mais esse degrau galgado na sua história de vida. E realizar esse sonho com maturidade tem vários benefícios.

Maturidade para ter calma nas horas difíceis faz toda a diferença. A Ana de 22 anos que planejava morar fora teria morrido de ansiedade a cada vez que não compreendesse o que alguém disse. Em contrapartida, a Ana de 31 desencana, ela apenas sorri e diz: "Entschuldigung, ich spreche kein Deutsch" (Desculpe, eu não falo alemão).

Outro exemplo: Estamos sem cozinha há um mês e meio (já mencionei isso aqui), lavamos a louça no banheiro, e se não lavarmos as duas facas e dois garfos que temos a cada uso, ficamos sem. Dez anos atrás, essa situação me daria comichão por conta da ansiedade e frustração. Hoje não. Eu realmente não me importo mais. Agora eu foco na 'imagem maior', em tudo que isso representa, e não nos detalhes que poderiam me enfurecer.


A maturidade também vem com a capacidade de contemplar o que há ao redor, observar as pessoas, aprender com elas. Maturidade traz humildade para aceitar a cultura do outro, sem perder de vista a própria identidade.

Essa mensagem abaixo chegou em mim tarde demais, mas eu ratifico cada linha: "Viaje enquanto for jovem e capaz. Não se preocupe com dinheiro, apenas faça dar certo. A experiência é infinitamente mais valiosa do que o dinheiro jamais será."

Se ainda não tiver passado dos 30: VÁ MORAR FORA!
Se já tiver passado dos 30: VÁ, mas leve os remédios consigo. ;)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Um novo país, um novo personagem

Uma amiga (oi, Veruska!) me marcou hoje nesse texto aqui, do Felipe Pacheco. Um texto um tanto dramático sobre como sair do país é, de certa dorma, morrer. No texto ele conta que está morando no Canadá há um mês, e eu rio da coincidência, pois estou na Alemanha há um mês também.

Não concordo com algumas coisas que ele diz, como a comparação do bota-fora a um velório, ou da despedida no aeroporto ser como um enterro. Minha partida não foi triste como um velório ou um enterro, meus familiares e amigos sabiam que eu estava indo realizar um sonho de longa data e estavam felizes por mim. Teve choro na despedida, claro! Mas teve sorriso, teve "até logo". Teve "boa sorte" e teve "nos vemos em setembro". Teve alguns "te amo" meio atrasados, mas isso é só um nó a menos pra carregar na garganta depois.

Sobre se redescobrir, se reiventar, eu já tentava fazer isso todo dia. Não sou escritora, uma vez que não recebo para tal, mas escrevo todos os dias da minha vida, e quem escreve olha muito pra dentro. Porque olhar pra dentro é se questionar, se negar e se aceitar. Refletir sobre si para poder escrever sobre o humano e sobre o mundo te obriga a te virar do avesso. Eu nunca acreditei que eu era o meu emprego, o meu carro ou o meu pequeno apartamento, como ele diz. É óbvio que eu não sou a minha rotina. Nem nunca permiti que minha rotina definisse quem eu sou.

Mas eu confesso que concordo plenamente quando ele fala em se reinventar. Num novo ambiente, você também adota o novo para si, e eu acho que essa parte do "novo papel" é a melhor. Sair do seu país e começar uma nova vida em outro é como ganhar uma tela em branco, de certa forma. A gente preenche ela como quer, dentro das oportunidades oferecidas, claro. Mas tanto a tela, quanto as oportunidades são diferentes, por isso, a imagem final, o papel a ser representado, será diferente.

A cada "morte" do papel antigo, a cada novo papel, existe a chance de fazer melhor que antes. Se preocupar menos, se permitir mais, ser mais (ou menos) saudável, confiante, espontâneo... A tela em branco é linda e assustadora ao mesmo tempo. Estou vivendo as delícias e medos da tela completamente em branco pela primeira vez, mas já acho que todo mundo devia passar por isso um dia, é libertador.

P.s.: Na foto abaixo, uma das muitas maneiras que eu me reinvento todo dia: Estamos morando num apartamento sem cozinha. Encomendamos uma, porém, o tempo de espera é de 2 meses. Mas como é inverno, os itens que iriam para a geladeira ficam assim, na sacada.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Um chaveiro e uma saudade

Há alguns anos - 5 ou 6, não sei precisar - meus pais me deram um chaveiro de presente. Eles haviam ido visitar Piratuba, em Santa Catarina, região famosa por suas águas termais e suas pedras. O chaveiro era de uma pedra amarronzada e tinha o formato do Brasil.

Na época, deixei o presente de lado, eu já tinha um chaveiro: um que uma amiga tinha trazido de Londres pra mim. Lá no Brasil, um chaveiro do Brasil não tinha serventia.

Agora, alguns anos mais tarde e 11 mil quilômetros distante do Brasil e dos meus pais, coloquei as chaves da minha nova casa européia naquele chaveiro de pedra. Agora ele tem um significado.

Acho que é isso que os pais fazem, nos fornecem coisas - seja um casaco, seja um conselho - que só farão sentido mais tarde.


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Lista de Viagem (o que levar na bagagem)

Eu já falei aqui da minha Lista pré-viagem, com todas as providências que você deve tomar antes de viajar.

Também já falei aqui do meu Kit Avião, uma pequena bolsinha com itens de sobrevivência para voos longos.

Agora quero falar da minha Lista de Viagem, uma lista que contém todos os itens que não posso esquecer de levar na bagagem, separados por destino, e as últimas providências a tomar antes de sair de casa.

NA MALA:
  • Absorvente, lâmina de depilação
  • Alicate de unha, lixa de unha, cortador de unha, tesoura
  • Shampoo, condicionador, creme para pentear, etc
  • Fio dental, escova de dentes, creme dental
  • Carregadores de celular
  • žMáquina fotográfica, carregador
  • Leitura para a viagem, Músicas para viagem
  • Pijama, chinelos para o hotel

NA MALA - LUGARES FRIOS
  • Luvas, cachecol, casaco, touca, protetores de orelha.
Confira mais detalhes na nossa matéria Inverno no Hemisfério Norte: o que usar.


NA MALA - LUGARES QUENTES
  • Filtro solar, chapéu, óculos de sol, biquíni/maiô, saída de banho, bolsa de praia, chinelos.

DOCUMENTOS:


  • Passaportes
  • Passagens (ônibus/trem/avião)
  • Seguro viagem


MEDICAMENTOS:

Anticoncepcional

Vitamina C

Antigripal

Antiácido/Remédio para azia

Relaxante muscular (com e sem cafeína)

Energético

Remédio para diarréia (você vai precisar!)

Analgésico/antitérmico



AÇÕES NA CASA:

Tirar os lixos

Comida, água, areia para seu Pet

Desligar aparelhos eletrônicos

Preparar lanche para a viagem

Água para a viagem

Lavar, secar e guardar toda a louça



Esqueci de algo? Conta aí nos comentários!

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Porque eu NÃO invejo o casal que se aposentou aos 30 anos para viajar o mundo

Já faz um tempo que eu adio este texto... Já iniciei e parei ele umas duas vezes... Sempre fico na dúvida se a polêmica vale a amizade, hehe.

A história do Casal que acumulou 1 milhão de dólares aos 30 anos, se aposentou e hoje viaja pelo mundo, a princípio, me chamou a atenção, claro! Abri a matéria imediatamente para saber COMO ELES FIZERAM ISSO? Também quero!

Porém, a cada linha, minha empolgação se dissipava.

Primeiramente, ambos tinham empregos corporativos com altos salários, o que já os distancia da minha, da sua, da nossa realidade.

Mas o que mais me entristeceu foi a parte em que eles contam sobre todos os sacrifícios que fizeram para alcançar esse milhão. As mazelas chegaram ao ponto de usar mais blusas e casacos dentro de casa só para evitar ligar a calefação! Eles moram nos EUA!

Além dessas privações no estilo de vida, eles trabalharam como loucos, atrás de promoções, aumentos e bônus. Trabalharam muitas horas mais do que os outros colegas.

Toda essa abnegação, de trabalho duríssimo e cortes absurdos nas atividades diárias, durou aproximadamente 7 anos!

Enquanto lia a matéria, meu cérebro só conseguia pensar: "E se eles tivessem morrido durante esse período de privações?"

Que ironia teria sido morrer no meio do caminho, no meio do plano, exaustos e infelizes.

Eu não faria o mesmo. Eu não faço isso na minha vida diariamente porque eu tenho uma visão muito clara da minha mortalidade e não acho que tamanho sacrifício vale a dúvida de estar vivendo de modo que me faça desejar morrer.

"Um criminoso foi condenado a prisão perpétua, porém sua pena foi reduzida pela metade. Como pode ser cumprida sua sentença?"

Da mesma maneira que esse desafio mental funciona, funciona a nossa vida.

O criminoso viverá um dia preso e um dia livre, pelo tempo que durar sua vida.


Como não sei quanto tempo permanecerei aqui, prefiro trabalhar um dia e viajar no outro (ou quase isso), e seguir assim, tendo a certeza de que metade do tempo que eu tinha foi fazendo o que eu mais amava.


Imagem Divulgação

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Quando um turista morre...

Toda morte violenta choca. Em geral, uma vida ceifada num acidente ou num crime causa mais revolta do que uma levada pela doença.

Mas certas mortes me dóem mais... Ontem, um técnico e medalhista alemão morreu no Rio, após um acidente de táxi...

Emociona-me muito quando fico sabendo de alguém que morreu durante uma viagem, longe de casa e da sua família.

Stefan Henze, o técnico alemão, veio ao Brasil participar das  Olimíadas, acompanhar a delegação alemã, conhecer o Rio de Janeiro...

Diferentemente de dezenas de outros atletas, que se recusaram a vir ao Brasil, deixando assim de competir, alegando preocupação com zica vírus, violência, poluição.

Stefan, não.

Como qualquer bom viajante, ele se 'arriscou' ao encarar o desconhecido.

Não é isso que fazemos, viajantes? Quando viajamos, nos colocamos a disposição do desconhecido, do acaso.

E é por isso que o turismo é uma reverência à cultura do outro. É abrir o coração para entender quem o outro é, como ele vive, o que come, o que faz, mesmo que isso signifique algum grau de periculosidade, ou altíssimo grau de desconforto.

Stefan não foi o único turista a morrer no Brasil. Brasileiros morrem no exterior. Abrir o coração para o outro tem desses perigos.

Exercito-me internamente, agora, para não deixar esse medo me impedir de dar o próximo passo.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Roteiro de 3 (ou 4) dias em Buenos Aires (com gastronomia)

Fui a Buenos Aires no feriado de Tiradentes deste ano (2016), cheguei na quinta à tarde e voltei no domingo ao meio-dia.

Seguem, então, minhas sugestões do que ver e onde comer em 3 dias na capital Argentina.

DIA 1

Chegando até umas 18h no seu hotel, ainda é possível aproveitar o Dia 1 para ver o sol se por em Puerto Madero. Uma amiga disse que o pôr-do-sol era o momento perfeito para se estar em Puerto Madero por conta das luzes dos guindastes que se acendem e o reflexo que produzem na água. De fato, recomendo essa região à noite. Lá, você verá a Puente de La Mujer, a Fragata Sarmiento, que é uma antiga embarcação que virou um museu náutico, e fotografar os guindastes que eram usados para descarregar produtos no porto. Não deixe de jantar uma Parrilla e tomar um sorvete na Freddo, de doce de leite, claro.




Todos os restaurantes nessa região são caros, mas o Cabaña Villegas é o mais acessível deles. Serve Parrilla de qualidade e tem vinhos bons em taças.

Se tiver tempo, já no primeiro dia, dê uma passada rápida no Café Tortoni e garanta seu ingresso para o Show de Tango deles, sobre o qual já falei aqui.

P.s.: Se você chegou na cidade bem cedo no primeiro dia, aproveite para fazer os passeios pelo centro, sugeridos abaixo.

DIA 2

Comece o dia se deliciando com as Medialunas da Canape, Cafe e Panaderia, na Calle Uruguay, 673. Padaria simplinha, mas que vai te deixar boquiaberto.


Teatro Colón - interior

Neste dia, explore a região central ao máximo. Faça um passeio a pé passando pelo Teatro Colón, que oferece tours guiados em Espanhol e Inglês, o valor é 200 pesos por pessoa e o passeio é de cerca de 1 hora.














Catedral Metropolitana - exterior
Catedral Metropolitana - interior














Depois, siga para o Obelisco e, se estiver com fome, pare para um churros com chocolate quente no Café Tortoni (e compre ingressos pro show de Tango, caso não tenha tido tempo no dia anterior). Depois, siga para a Plaza de Mayo, onde você verá a Catedral Metropolitana, linda por dentro e por fora, e a famosa Casa Rosada.


Plaza San Martín

Depois, caminhe pela Calle Florida, que é uma rua com lojas e casas de câmbio, até chegar na belíssima Plaza San Martín.

Se sobrar tempo, dê uma rápida passada no El Ateneo, teatro que virou uma livraria.
À noite, emocione-se no Show de Tango.

Nessa região central, recomendo o Restaurante Million, na Calle Parana, 1048.




DIA 3


Rosedal

Rosedal











No terceiro dia, é tempo de explorar os Bosques de Palermo e o bairro da Recoleta. Comece pelos Bosques de Palermo, que são o Rosedal, com entrada gratuita, e o Jardim Inglês, que é pago (confesso que não quis entrar no Jardim Inglês, mas de fora pareceu impressionante).


Floralis Genérica

Ali perto é a Plaza de las Naciones Unidas, onde fica a Floralis Genérica. Depois siga para a Recoleta, para ver o famoso Cemitério da Recoleta.


Cemitério da Recoleta

















Música ao vivo no Caminito

Caminito















Se sobrar tempo, pegue um metrô e depois um táxi para conhecer o Bairro La Boca, onde fica o Caminito. O passeio é rápido, mas é perfeito para um fim de tarde, com uma Quilmes gelada e a música ecoando por todos os cantos do lugar.

Almoce no delicioso e tradicional (e com bom custo-benefício) Don Julio, na Calle Guatemala, 4691, próximo aos Bosques de Palermo.

Para mim, o quarto dia foi um tanto triste. Eu havia planejado ver a Feira de San Telmo, que só acontece aos domingos, ainda antes de embarcar de volta pra casa. Eu imaginava que, se chegasse às 8h em San Telmo, veria a feira até umas 9h30, voltaria ao hotel até às 10h, e estaria às 11 no aeroporto, para pegar o voo ao meio-dia. Acontece que só lá em Baires descobri que a Feira só começa às 10h da manhã. Resultado, não conheci a feira... Mas, se você tem um voo mais tarde que o meu no domingo de volta, pegue um metrô e vá até este famoso mercado de pulgas.

...

Talvez você também queira ver as outras matérias sobre a cidade:

Buenos Aires, onde conto minhas lembranças afetivas da capital Porteña;
Buenos Aires - 8 anos depois e 2 gripes suínas mais tarde, onde conto sobre os motivos que adiaram minha visita à cidade em, nada mais, nada menos, que 8 anos!
E os Videos do show de Tango do Café Tortoni, para te deixar com água na boca!