Ana Raspini é viajante, além de professora de Inglês, e escritora.

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Brasileira, professora de Inglês, escritora, mas acima de tudo, viajante.

quinta-feira, 5 de março de 2015

RIO DE JANEIRO

Aterrissar no Aeroporto Santos Dumont é uma aventura, mas também é um encantamento. Seja pelo medo ou pela formosura, haverá frio na barriga. Ver, lá de cima, aquela geografia única prometida pela televisão é memorável.

É impressionante ver como tamanha beleza natural anda, lado a lado, com tamanha ocupação urbana. É mais impressionante ainda observar a banalidade com a qual os cariocas tratam tamanha beleza.

Nós, de fora, pensamos que não pode haver tristeza num lugar como este, que cara feia seria um pecado mortal quando se olha pela janela e se vê o Pão de Açúcar. Mas o carioca se permite cara feia e mau humor, principalmente quando precisa servir alguém. Cariocas não nasceram para servir, nem um pão, nem uma lagosta.

A natureza é, sem dúvida, a protagonista da cidade, mas o carioca também se acha digno de um Oscar. As montanhas são espantosas, e estão sempre lá, como uma moldura, sendo a praia o centro do quadro. E sempre haverá alguém se exercitando nessa espécie de arte performática que é o carioca e a sua paisagem.

As praias têm personalidade própria, e cada atitude da maré, da areia, da brisa, traz um frequentador diferente. Mas todos os frequentadores sabem onde seus amigos se encontram. E eles se encontram lá todo dia. “Dia de semana” é apenas uma terminologia, certo?

Um barzinho, uma cerveja gelada ou uma caipirinha deixam qualquer boêmio feliz. Adicione uma fritura qualquer e terá um turista que não quer que a madrugada acabe.

O sol se põe, na montanha desta vez, não no mar. A dança rotacional da terra faz com que cada pôr-do-sol seja inédito. As luzinhas das casas na favela se acendem e iluminam Ipanema. Ou Ipanema as ilumina?

O Rio é uma Bossa Nova: um gozo despreocupado, porque complicar a vida é mesmo desnecessário.






sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

EGUISHEIM

Eguisheim foi parar no roteiro da maneira mais linda: uma matéria na Internet a classificava como a cidadezinha mais linda da França e escolhida como a preferida pelos franceses. E isso tudo semanas antes da viagem. Quanta coincidência feliz.

Porém, chegar em Eguisheim justo no dia do Festival Anual dos Viticultores de Eguisheim (Fête Des Vignerons d'Eguisheim), sem nenhum planejamento anterior: isso, sim, é uma coincidência feliz!

No caminho entre o estacionamento e o centro da cidadezinha, uma constatação que me fez sorrir por dentro: cada rua tinha o nome de uma uva.

Ao passar pelas casas, observamos que quase todas elas tinham um vinhedo no quintal. E eu imaginava como deveria ser viver ali. Você faz um bom vinho, o seu vizinho também. Os jantares com amigos devem ser memoráveis!

Chegando no centro da cidade, pudemos ver todo o desfile que inicia o festival. Bandas marciais tocavam, todos vestiam roupas de épocas passadas. Rolhas eram jogadas na multidão e vinho branco, a especialidade da região, era servido gratuitamente aos que tinham um copo na mão. Seria o paraíso? Sim, sem dúvida.

Bem no centro uma igrejinha, e, sobre ela, uma cegonha em seu ninho. Eu nunca tinha visto uma cegonha antes, e ela era enorme! Então, me dei conta de que a lenda de que cegonhas carregam bebês havia viajado centenas de anos, e milhares de quilômetros para alcançar aquela gauchinha que morava na Serra. Como uma cultura tão diferente da minha, fez, de certa forma, parte de mim?

Subindo a montanha, vimos vinhedos ainda maiores, e paramos parar degustar algumas uvas. A cada uva de cor diferente, um cheiro e um sabor únicos. No topo da montanha, as ruínas de três castelos. E lá de cima, uma vista surreal de fileiras de uvas que traçavam o solo em tons de verde.

Ainda hoje, meses depois, faço cálculos mentais do que é preciso para largar a vida aqui e ir morar em Eguisheim. Seguido de um suspiro.


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Fotos de Meiry Peruchi

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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

COLMAR, França

Numa viagem que já havia contado com belas cidades, tais como Paris, Reims e Strasbourg, eu, certamente, não esperava ficar tão impressionada como fiquei em Colmar e Eguisheim. Mas vamos deixar Eguisheim para o próximo round.

Eu já me considerava uma conhecedora da Alemanha e da cultura alemã e, naquela viagem, eu havia recém me familiarizado com o estilo bon vivant de vida dos franceses. Os Parisienses, certamente, sabem como passear pelas ruas ou ler jornais nos parques como se fossem parte do cenário. Como se estivessem lá para serem fotografados... Ou invejados.

Os alemães, por outro lado, além de saberem fazer cerveja, têm orgulho da sua pontualidade, e por que não dizer que eles têm também muito orgulho da sua burocrática, porém eficiente, rotina.

Quando, na minha vida, eu havia descoberto as duas informações anteriores, e tinha tido tempo suficiente para certificar e digerir ambas, eu cheguei em Colmar. Como se sonhar morar em, no mínimo, três outros países que eu havia visitado antes não tivesse me arruinado o suficiente...

Colmar é tão bem mantida, tão bem decorada com flores, tem construções em enxaimel tão intactas e ruas tão limpas que parece fazer parte de um conto de fadas, como aqueles dos Irmãos Grimm. Mas, ao mesmo tempo, a sensação de que você ainda está na França é inegável: comida gourmet, vinhos brancos sensacionais, o "ritual do garçom"...

Era domingo, quando a maioria das lojas e restaurantes fecham, mas eu tive a alegria de testemunhar a preparação e experimentar o melhor Brezel que já comi na vida, mudando completamente minha opinião sobre esse pão seco e de formato estranho.

Os canais, as lanternas nas casas e nas ruas, trepadeiras dando às construções um ar ainda mais rústico, as janelas típicas, a competição de qual cidade tem mais flores... Tudo isso faz o lugar parecer irreal, como se o viajante estivesse imerso num sonho que parece real demais para se crer.

Aquele pedaço de terra onde a organização alemã encontra a auto-complacência francesa: a verdadeira perfeição! Certamente “o melhor dos mundos possíveis” (Voltaire).


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Fotos de Meiry Peruchi

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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

SÃO JOSÉ DOS AUSENTES

O frio seco, concreto,
que molda os ossos
e arqueia a postura,
somente prepara a alma
para a cerração das 3 da tarde.
As pedras centenárias da avenida
colocadas à mão, uma a uma,
ilustram bem o silêncio, maciço,
e a solidão local.
O Minuano é quem impera.
Sim, “quem”. Ele é quase uma entidade.
O frio e o vento,
inquilinos perpétuos dos campos e capões.
Ouvirás uma milonga em dias tristes
e um chamamé em dias de festa.
Um mate sempre à mão
é o regalo mais desejado.
Ninguém tentou domar o tempo,
mas ele é mais bondoso em Ausentes.

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Fotos de Meiry Peruchi








segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Confissões de uma Viajante Compulsiva



Minha mochila senta a meu lado
e um sentimento de não-pertencer
parece envolver nós duas.
Esperar não é uma arte,
Bishop concordaria.
E nós esperamos,
por férias que parecem tão distantes,
por bônus que permitirão que essas viagens aconteçam,
pela benevolência dos chefes,
por tempo bom, cama macia, comida reconfortante.
Os espaços entre as viagens
não contêm a vida em sua plenitude.
Eles são um tipo de limbo
separando você e o que virá.
Eu observo os passantes.
Eles parecem ter tudo planejado:
Um destino
e força para chegar lá.

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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

DRESDEN

A Alemanha é, pra mim, um amor de muitos anos. Daqueles amores sólidos, que se constroem com tempo e observação. Foi difícil escolher uma cidade da Alemanha por onde começar, e possivelmente eu cometa uma ou outra injustiça, mas vou tentar... Já aviso que este texto é mais longo que os outros, mas entendam que este é o meu lar longe de casa.

Eu voltaria a visitar todas as cidades por onde passei na vida, seja para matar a saudade, seja para mudar a perspectiva. Dresden é a primeira cidade que menciono aqui a qual eu, de fato, voltei.

Em Dresden, eu vi neve européia pela primeira vez, muito diferente da neve gaúcha que permeou minha infância. E depois de testemunhar que cada floco de neve tem mesmo uma forma única, assim como as pessoas, coloquei a língua para fora e tentei engolir alguns flocos.

Dresden sofreu muito no passado: guerras, bombardeios, genocídio... Mas foi lindamente reconstruída e nem aparenta ter o passado cruel que teve. Dresden fica onde costumava ser a chamada Alemanha Oriental, que era socialista. Mas ela não se parece com a maioria das outras cidades da Alemanha Oriental. Dresden carrega em si todas as características das grandes cidades históricas européias: Catedrais Barrocas, prédios históricos, monumentos...

Dresden é organizada a ponto de parecer uma cidade pequena, e não a metrópole que é. A limpeza das ruas e pontualidade do transporte público são, aliás, traços que os alemães conhecem bem.

A comida alemã é farta e agrada, principalmente, aos carnívoros. Poucos preparam carne de porco melhor que os alemães. Por toda a Alemanha você comerá bem, e muito, pagando pouco. Cada refeição é um acalento para o turista cansado, um agrado para o coração que tem saudades de casa.

A cerveja alemã é como a música: centenas de tipos diferentes, para que qualquer pessoa tenha a sua preferida. Esqueça sua experiência brasileira com cervejas: Elas são tão boas que você nem vai notar que não estão geladíssimas. E assim como os franceses se permitem excentricidades com seu vinho, os alemães também as têm. Deixe seu pudor em casa! Cerveja pilsen com Sprite chama Radler, e cai muito bem num dia de calor. Cerveja de trigo com suco de banana é muito melhor do que parece!

E falando em pudor, não se assuste ao saber que na Alemanha Oriental é comum ir à sauna nu.


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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

PARIS

Cheguei em Paris sem expectativas: já havia aprendido a não carregar expectativas na mala, pesam demais.

Os monumentos são incontáveis, porém, não se iluda achando que eles estão tão próximos quanto parecem. Eles são tão imponentes que parecem estar a 10 metros, quando, de fato, estão a 5 quilômetros. Mas nenhum monumento estará livre de filas, ou do cheiro de urina.

Cuidado com os carros, e com os ouvidos. Franceses parecem procurar a buzina do carro antes mesmo do cinto de segurança. Os ruídos são muitos, vozes, risos, talheres...

A comida é uma revelação. Não é necessário nem procurar muito, é possível encontrar comida boa em quase qualquer lugar, até os menos atrativos. Mas dê preferência aos restaurantes que têm uma lojinha na frente, por incrível que pareça.

Se a comida é uma tentação, os vinhos são os centímetros que faltavam para sua total ruína. Cubos de gelo em taças de rosé? Esqueça, não me atrevi a questionar. Acho que quem produz o melhor vinho rosé (e branco!) do mundo tem direito a algumas excentricidades.

Mas nada se compara, nem se comparará, ao nó que dá na garganta quando você vê aquela arte que admira desde criança ao vivo na sua frente. Seja Rodin, num beijo, seja Monet, num lago.

A Torre? É linda, sim. Mas nem tão onipresente quanto se pensa. Mesmo assim, é reconfortante virar a esquina e vê-la iluminada, saltando entre os prédios. É bom saber que ela está lá.

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Fotos de Meiry Peruchi

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